
Esta é uma daquelas obras que merecem ser relidas, revisitadas, reapreciadas. Os trechos que aparecem nesta dica de leitura, fazem parte da publicação feita pela editora José Olympio, em 2026, na sua 126ª edição. O romance é essencial, em todas as estantes, para a compreensão da vida, em todas as suas ocorrências. A obra foi gerada e parida (aqui me recordo de Sócrates) em um contexto que a torna verdadeiramente atemporal. O que é uma das características fortes de uma obra, e não de um livro. Ou seja, apesar de nos fazer mergulhar em um cenário tipicamente brasileiro, nordestino, cearense, aborda o ser humano e a natureza e seus contrastes com a existência.
“Minha tia resolveu que, não chovendo até o dia de São José, você abra as porteiras e solte o gado. É melhor sofrer logo o prejuízo do que andar gastando dinheiro à toa em rama em rama e caroço, pra não ter resultado.” (p. 31)
Publicado em 1930, quando no Sudeste o movimento modernista chegava ao final da segunda fase. E o título, emblemático, já é uma referência à seca que devastou o Ceará em 1915. Um período dos mais sacrificantes, sofridos pelos nordestinos brasileiros. Para quem não conhece esta realidade, ou não teve que penar, passando por ela, a obra também é indispensável. Escrito quando Rachel Franklin de Queiroz era uma garota de 16 anos. Por isso mesmo, sua autoria foi durante certo tempo desacreditada. Como diriam hoje: “É verdade que foi você quem escreveu isto?” E apenas para enfatizar: não havia IA como forma de camuflar a originalidade do texto. A autora precisou ser forte para defender sua cria. Tal qual os personagens de seu texto, que lutam pela sua sobrevivência.
“- Por isso não! Aí nas cargas eu tenho um resto de criação salgada que dá pra nós. Rebolem essa porqueira para os urubus, que já é deles. Eu vou lá deixar um cristão comer bicho podre de mal, tendo um bocado no meu surrão.” (p. 49)
No decorrer dos 26 capítulos, somos levados a conhecer a saga dos retirantes, tentando fugir da desgraça que os assola. Podemos dizer que são duas histórias diferentes, mas que comungam da mesma saga. De um lado, temos a família da Chico Bento, sua esposa Cordulina, e seus filhos Pedro, Josias e Duda. Já em outro grupo, temos a vó Inácia, Conceição, dona Idalina, Vicente, Chico Bento, o Major. Todos estes compartilhando de uma mesma catástrofe, porém distintos quanto aos níveis diferentes de misérias. Flor do Pasto, Mimosa, Fidalga e Andorinha são nomes dados a algumas vacas, criadas e sacrificadas pelo antagonismo da seca. Até os urubus antagonizam na história.
“As reses secavam como se um parasita interior lhes absorvesse o sangue ou lhes devorasse os músculos, deixando apenas a dura armação dos ossos, sob o disfarce miserável do couro puído e sujo.” (p. 125)
O enredo se desenvolve em Quixadá, cidadezinha no interior do Ceará. A natureza descrita, recheada de poesia. Os animais, fonte de sustentação, também integram e interagem de forma bastante significativa, gerando afeto ou repugnância. Todos enfrentam a escassez extrema: de água, de alimento, de trabalho, de vida digna. Mas também há espaço para o sonho, para o despertar da paixão, para a realização de seus projetos, tendo como escudo a fé e a resiliência. A religiosidade de vó Inácia, a fé da benzedeira, a quermesse em homenagem a São Francisco, até a cruz fincada no túmulo do que morrera precocemente de fome são registros de uma fé. As leituras de Conceição (neta de dona Inácia), o amor e a dedicação pela sala de aula, trabalhando na entrega de mantimentos aos miseráveis retirantes. E já naquela época, possuindo alguns traços uma mulher planos opostos aos anseios da tradição familiar.
“A velha, com os olhos cheios de lágrima, voltou a fitar o pequenino morto. Depois, foi ao quarto do Coração de Jesus, tirou do jarrinho que o enfeitava, uma rosa vermelha e mirrada – triste flor de verão e meteu-a entre os dedos do menino…” (p. 139)
De linguagem simples, clara e informal, O quinze é mais uma obra pertencente ao grupo de textos reconhecidos como “literatura da seca”, fotografia amarga de uma época, marcada pelo êxodo, como consequência da fome despertada pela seca. O determinismo é um elemento forte, presente na vida destes personagens, que se encontram fadados ao sofrimento, à miséria como se estas marcas fossem indispensáveis à vida do nordestino. A depender do nosso envolvimento com a leitura, mesmo nos fazendo passar por trajetos áridos, ela pode molhar nossos olhos.



