
Um dos nomes mais emblemáticos do telejornalismo esportivo brasileiro recorreu às redes sociais para fazer um ‘apelo’ por emprego, lembra? Cinco anos após deixar a TV Globo e com a serenidade que sempre lhe foi característica, o jornalista Tino Marcos publicou um vídeo em seu perfil no Instagram revelando que estava em busca de oportunidades e precisava voltar a trabalhar. A internet se comoveu com o “pedido por emprego” até descobrir que aquilo não passava de uma brincadeira, uma maneira do repórter anunciar sua chegada ao satírico Portas dos Fundos.
O vídeo do ex-repórter da Globo dividiu opiniões – por se tratar de um dos maiores nomes do jornalismo esportivo, dono de um texto impecável, de um faro jornalístico raro e que marcou época na cobertura de oito Copas do Mundo. Ele colocou sua credibilidade em risco em nome de uma ‘brincadeira´. O Tino sabe que é arriscado brincar de mentir. E acho que ele não faria isso novamente, considerando o quanto trabalhou para conquistar credibilidade, que é o que um jornalista pode ter de melhor.
Mas a fala de Tino Marcos me fez refletir e ecoa como um lamento incômodo e urgente para toda a categoria, sobretudo, no Brasil. A performance do conceituado comunicador joga luz sobre um mercado de comunicação que, em sua atual fase de reestruturação digital, muitas vezes parece trocar o patrimônio do conhecimento e a solidez do profissionalismo, por “influenciadores” e pelo imediatismo de cliques ou pela redução drástica de custos. Não tem sido assim?
Quando um jornalista experiente encontra portas fechadas e precisa ir a público pedir espaço, a mensagem subliminar enviada aos novos profissionais é, no mínimo, desmotivadora. O mercado atual assiste a uma perigosa onda de etarismo e obsolescência programada de talentos humanos, por exemplo, onde a bagagem acumulada em décadas de estudo e grandes coberturas é, muitas vezes, tratada como um custo e não como um ativo de credibilidade.
Ver jornalistas/radialistas buscando por projetos concretos onde possam atuar, não são casos isolados e isso reflete uma era em que experiência/especialidade, lamentavelmente, perde espaço na prateleira. Eu mesmo conheço excelentes colegas, com pós-graduação, se submetendo a algumas ´condições de trabalho´ para conseguir uma vaga ou se manter no mercado da comunicação, que, em algumas praças, tem deixado a desejar em relação a qualidade editorial.
Se reinventar é preciso, eu sei – na redação, no rádio e na televisão. Mas a reinvenção que ignora o talento, a experiência, o estudo e a credibilidade para focar somente na tal “influência” e nos cliques, pode formar um mercado inconsistente que, pela baixa qualidade editorial, não atenderá aos interesses de consumo/audiência a longo prazo.
Resta saber se os novos players de mídia, plataformas de streaming e de grandes veículos terão a sensibilidade e a inteligência mercadológica de resgatar e valorizar quem, verdadeiramente, sabe contar histórias com excelência e tem, na bagagem, a credibilidade necessária para ser lido, ouvido e visto no audiovisual contemporâneo.



