O senador Flávio Bolsonaro (PL) desembarcou em Miami, nos Estados Unidos, nesta quarta-feira (28), acompanhado da mulher e das duas filhas, três dias após ser derrotado na disputa pela Presidência da República. Em sua primeira manifestação pública após deixar o Brasil, ele divulgou uma carta com acusações infundadas de fraude eleitoral e chegou a se autodeclarar “o verdadeiro presidente do Brasil”. Vinte e dois minutos depois, recuou e substituiu a expressão por “líder do Brasil”.
Na carta, intitulada “Carta aos brasileiros”, Flávio alegou ser vítima de perseguição política e afirmou que liderará a oposição ao governo Lula a partir dos Estados Unidos. O senador também agradeceu ao presidente americano, Donald Trump, e ao presidente argentino, Javier Milei, pelo apoio. Antes mesmo de sua chegada a Miami, o governo dos Estados Unidos havia informado que concederia vistos de permanência a ele e à família.
A viagem ocorreu após o descumprimento de uma ordem do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou a entrega dos passaportes do senador em até 24 horas. Flávio foi intimado na segunda-feira (26) e deixou o Brasil na terça-feira (27), atravessando a fronteira com a Argentina com um passaporte italiano.
Segundo informações apuradas pelo jornal Valor Econômico, a Polícia Federal (PF) monitorava a situação, mas não havia ordem específica do STF para prender o parlamentar. Em nota, a corporação esclareceu que a determinação de apreensão dos passaportes não autorizava, por si só, a prisão ou a adoção de outras medidas cautelares. A PF informou ainda que investiga as circunstâncias do descumprimento da decisão judicial e que não há registro oficial da saída do senador nos postos de controle migratório brasileiros.
De acordo com a Direção Nacional de Migrações da Argentina, Flávio entrou no país vizinho às 22h50 de terça-feira. Pouco depois, às 23h52, ele e a família embarcaram em um jato particular no aeroporto de Puerto Iguazú. A aeronave fez uma escala em Guayaquil, no Equador, antes de seguir para Miami, onde pousou às 10h23 desta quarta-feira.
TSE reafirma lisura das eleições
Após a divulgação da carta, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, reafirmou que as eleições de 2026 transcorreram dentro da “mais absoluta normalidade”, com respeito às normas legais e constitucionais.
O magistrado afirmou que eventuais questionamentos apresentados pelos meios legais serão analisados e respondidos. A declaração foi uma resposta às alegações de Flávio, que questionou o resultado eleitoral e acusou a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de abuso de poder político e econômico.
Entre os argumentos apresentados pelo senador está a decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF, de prorrogar por duas horas o horário de votação em razão de problemas no transporte público em alguns estados. A própria campanha do PL, entretanto, também havia solicitado a prorrogação em municípios afetados pelas chuvas. Segundo levantamento do TSE, apenas 34 mil votos foram computados entre 17h e 19h, enquanto Lula terminou a disputa com 4,4 milhões de votos a mais que Flávio.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por sua vez, afirmou que não pretende se envolver na controvérsia eleitoral brasileira.
Aliados foram surpreendidos
A viagem e o conteúdo da carta também provocaram surpresa entre aliados do senador. Pessoas próximas à campanha afirmaram desconhecer o paradeiro de Flávio e só souberam de sua saída do país por meio da imprensa. Segundo relatos, aliados também discordaram do tom adotado na primeira versão do documento.
Flávio não reconheceu formalmente a vitória de Lula antes de deixar o Brasil. O próprio PL, o candidato a vice na chapa, Alfredo Gaspar, e o coordenador da campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), reconheceram o resultado eleitoral.
Na carta, o senador afirmou que continuará atuando politicamente a partir dos Estados Unidos e que assumirá os riscos que, segundo ele, os parlamentares do PL não poderiam correr no Brasil. O documento também faz referências ao venezuelano Juan Guaidó, que se autoproclamou presidente interino da Venezuela em 2019, e à líder oposicionista María Corina Machado.
Além da mudança na autodeclaração presidencial, a segunda versão da carta apresentou alterações no brasão da República: a grafia “Brazil”, com “Z”, utilizada inicialmente, foi substituída por “Brasil”, com “S”.



