De acordo com as pesquisas recentes, o número de leitores no Brasil tem crescido significativamente. Claro que é um fato animador, porém nunca é o suficiente, considerando o quantitativo de publicações que, a cada instante, surgem. Segundo a Câmara Brasileira de Livros (CBL), os brasileiros alcançaram o número de 3 milhões de novos compradores em 2025. São vários títulos, temas e gêneros literários para todos os gostos e para todas as idades.
A pesquisa Panorama do Consumo do Livro nos informa que “18% da população dom 18 anos ou mais adquiriu ao menos um livro nos últimos 12 meses”. O curioso é que não se limita, claro, à literatura brasileira, tampouco às obras clássicas. Tem-se também o acesso a publicações de outros países e de autores não apenas daquela obra representativa de determinada cultura. Isso em se tratando, apenas, de literatura de ficção.
É o caso, por exemplo da literatura russa, considerada uma das mais marcantes do mundo. Esta, de forma específica, trago como indicação através de uma das obras de Lev Tolstói, A morte de Ivan Ilitch. Sobre essa literatura, temos algumas informações para as quais não devemos levar em consideração. Isto, se o objetivo for, obviamente, expandir o horizonte de leitura. Apesar de ter fama de ser complicada, principalmente no que se refere a nomes de lugares e de pessoas, vale a começar neste caminho e, ao se habituar, acrescentar outros títulos, outros autores, a exemplo de Dostoiévski (Crime e castigo).
“Ivan Ilitch casou-se de acordo com os seus próprios cálculos: conseguindo tal esposa, fazia o que era do seu próprio agrado e, ao mesmo tempo, executava o que as pessoas mais altamente colocadas consideravam correto.” (p. 23)
Nesta obra, uma novela, Tolstói constrói uma narrativa que se pode chamar, entre tantas opções, de existencial. A trajetória de vida de um personagem central (Ivan Ilitch). Neste percurso, acompanha-se a sua construção familiar e profissional, sua ascensão e sua queda. A narrativa também é um exemplo de quando o “menos é mais”. Considerando a espessura da obra, corre-se o risco de julgá-la menos importante. Da mesma forma que “Não se deve julgar um livro pela capa”, igualmente não se pode julgar uma obra pela sua espessura, muito menos pelo seu título. Até porque não são poucas as pessoas que relatam sua experiência com esta narrativa, citando-a como um verdadeiro “divisor de águas”. Passaram a enxergar a vida de outra forma, valorizando-a, aproveitando cada momento, desde os mais simples a partir das experiências de Ivan Ilitch. Mas o que há de tão marcante nesta obra?
“Ivan Ilitch queria, mais que tudo, por mais que se envergonhasse de confessá-lo, que alguém se apiedasse dele como de uma criança doente. Queria ser acarinhado, beijado, que chorassem sobre ele, como se costuma acarinhar e consolar crianças.” (p. 57)
Uma das fortes características do estilo russo é a estilo marcante da exploração psicológica, da dramatização intensa e das reflexões tanto filosóficas, quanto social, bem como de personagens complexos. E é justamente isso o que nos revela a história deste personagem que dá nome à obra. Ainda que o elemento “morte” já esteja presente no título, é engano pensar que se trata simplesmente de quem morreu, de que forma isto aconteceu, onde ocorreu e quais as consequências desse acontecimento. O narrador conduz o leitor para uma reflexão existencial sobre a relação entre a vida e a morte. O local e a importância que ambas ocupam, quando se vive apenas de aparência e obcecados pela realização de sonhos.
“A vida, uma série de tormentos em crescendo, voa cada vez mais veloz para o fim, para o mais terrível dos sofrimentos.” (p. 70)
A história é dividida em 12 capítulos. Como sugere o título, inicia-se justamente com o personagem já morto, sendo velado. Ele é o Ivan Ilitch, um juiz russo de 45 anos. Já no início da narrativa, a falsidade, a ganância, a superficialidade nas relações sociais são colocadas. Justamente em um cenário que deveria despertar respeito, compaixão e dor. Nos demais capítulos, o narrador nos aproxima de cada personagem, do papel de cada um na trajetória de Ivan Ilitch e de como este, apesar de conquistar todos os seus objetivos, teve que lidar com uma situação deplorável. A relação com a família (sua esposa Práscovia Fiódorovna) e seu filho Vladmir), com os colegas de trabalho (um deles é o Piort Ivânovitch) e seu criado (Guerássim) está marcada pelo vazio da vida burguesa, pelas relações sociais regadas a interesses e conveniências, coroada pela finitude da vida.
Percebe-se, no decorrer da leitura, que a morte é colocada como elemento central, uma vez que sua manifestação é o que desperta várias reflexões: o valor da vida e de que maneira se vive; as pessoas com quem convivo estão verdadeiramente comigo?; qual o nível de interesse que existe nas minhas relações (familiares, profissionais)?; quem, no momento de maior necessidade, está disposto a compartilhar da minha dor? E não são poucas as vezes que podemos contar justo com quem jamais imaginávamos. E a vida segue, dando suas lições inesquecíveis, mesmo diante das situações mais deploráveis. Aqui está mais um desafio de leitura.



