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Ler para resistir: a atualidade de Carolina Maria de Jesus

Como a obra Quarto de Despejo segue iluminando debates sobre consciência negra e realidade social.
Quarto de despejo: diário de uma favelada | Autora: Carolina Maria de Jesus | Editora Ática
Quarto de despejo: diário de uma favelada | Autora: Carolina Maria de Jesus | Editora Ática

Pode até parecer clichê, mas a verdade é que a leitura é também uma forma de resistência e que precisa, igual às demais manifestações artísticas, ganhar mais força em nossa prática. Precisamos abrir espaço para livros de autoras e de autores, cujas origens são marcadas pela africanidade. Neste dia 20 de novembro, no qual celebramos o Dia da Consciência Negra, lembro de um livro marcante na nossa literatura e que merece um destaque.

A propósito, nosso Brasil tem uma produtividade invejável, a exemplo de clássicos antigos e sempre atuais, como Machado de Assis, Maria Firmina dos Reis, Lima Barreto, entre tantos. Já os do nosso tempo, a exemplo de Conceição Evaristo, Ana Maria Gonçalves (primeira mulher negra a integrar a Academia Brasileira de Letras) e outros tantos têm se destacado no cenário nacional e mundial.

O destaque literário deste mês, será dado para Carolina Maria de Jesus e sua obra Quarto de despejo: diário de uma favelada. Ela vem de sua cidade natal (Sacramento/MG), à procura de trabalho pelas cidades do interior paulista. Chega à capital do estado em 1947, instalando-se na favela Canindé, ganhando as ruas para trabalhar como catadora de papel.

Publicado em 1960, há nele registros dos diários de Carolina, em período de cinco anos (1955 a 1960). Best-seller traduzido para 13 línguas, o livro também é um referencial importantíssimo para que possamos compreender contextos culturais, sociais, tanto aqui no brasil quanto no mundo. Carolina vivencia, no Brasil, o lema do presidente Juscelino Kubitschek “50 anos em 5”, lema típico das cidades desenvolvimentistas.

“… o Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome tambem é professora. Quem passa fome aprende a pensar no próximo e nas crianças.” p.29

Uma das primeiras escritoras negras do Brasil, sua obra aparece mundialmente como um exemplo de literatura-verdade, pois através de relatos diários de seu cotidiano, narra a triste e cruel realidade de uma mulher negra. Em seus registros, Carolina compartilha a triste, crua e lamentável realidade de uma mãe (de três filhos), que luta para sobreviver, combater a fome e criar seus filhos em um contexto de extrema pobreza, desigualdade de gênero, de classe e de raça.

“… Não havia papel nas ruas. Passei no frigorifico. Havia jogado muitas linguiças no lixo. Separei as que não estava estragadas. Eu não quero enfraquecer e não posso comprar. E tenho um apetite de Leão. Então recorro ao lixo.” p.93

Para quem está acostumado a textos com uma linguagem clássica, de acordo com a norma culta (exceto a linguagem contextualizada dos personagens), em Quarto de despejo encontraremos o oposto. Há nele uma escrita fruto de uma pessoa com poucos anos de escolarização, com “erros” (na verdade inadequações), no uso da língua vernácula. Porém isso é o que dá um toque magistral, uma vez que revela a dedicação à escrita, o compromisso com a leitura, o amor pelas letras, e reforça a autenticidade da obra. Prova disso é que escritoras catedráticas se renderam ao texto de Carolina, a exemplo de Clarice Lispector e Conceição Evaristo.

“Não sei dormir sem ler. Gosto de manusear um livro. O livro é a melhor invenção do homem.” p. 24

Como Carolina Maria de Jesus tornou-se escritora? Este é um ponto bastante polêmico em relação à esta obra especificamente, pois foi necessária uma “ajudinha”. O repórter Audálio Dantas foi designado para elaborar uma matéria sobre a expansão de da favela Canindé, às margens do Rio Tietê. Conheceu Carolina em sua busca pela reportagem, que se apresentou como alguém que tinha muito a dizer sobre seu mundo. E a história que ele tanto procurava já estava escrita em uns vinte “cadernos encardidos”, produzidos por Carolina. Após alguns ajustes (grafia, acentuação, pontuação), buscando preservar ao máximo a autenticidade do texto, os registros foram transformados em reportagens, até chegar a ser livro.

“Mesmo elas (as crianças) aborrecendo-me, eu escrevo. Sei dominar meus impulsos. Tenho apenas dois anos de grupo escolar, mas procurei formar o meu caráter.” p.16

Houve quem duvidou da autoria e da originalidade do texto, motivo este para outra discussão. O que faz desta obra uma leitura essencial, indispensável na vida de todo leitor é, entre outras coisas, sua atemporalidade. Uma obra de décadas passadas, mas tão atual, ainda tão impactante, nos transportando para a realidade cruel de tantos lugares. Até mesmo perto de nós. A fome ainda é uma habitante indesejável em muitos lares. O racismo ainda é fruto podre no íntimo de muitos que se dizem “humanos”. Quarto de despejo: diário de uma favelada é mais uma excelente opção, porta de entrada para se construir uma “consciência negra”.


Marcos Tomé – Graduado em Letras pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), especialista e mestre em Língua Portuguesa pela mesma instituição. Atua como professor de Língua Inglesa e é apaixonado pela Literatura, área que inspira sua trajetória acadêmica e profissional.

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