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Esta é uma crônica de pesar

Entre helicópteros, tiros e silêncio, o Rio amanheceu em luto — uma cidade dividida entre a violência do Estado e o choro das comunidades.

Na aurora do dia 28 de outubro de 2025, os morros da Zona Norte do Rio de Janeiro ̶ os do Complexo do Alemão e do Complexo da Penha ̶ acordaram sob o estrondo de helicópteros, viaturas blindadas e o som retumbante de tiros que ecoavam como trovões em tarde sem sol. Era uma operação anunciada, chamada Operação Contenção, com cerca de 2.500 policiais e agentes do Estado.

Mas a força que entrou nas vielas e becos encontrou algo além da resistência: encontrou mortes em massa, destruição e o grito sufocado de comunidades que vivem à margem da cidade “oficial”. Oficialmente, o governo do Estado contabilizou 64 mortos, entre os quais quatro policiais. Na manhã seguinte, moradores do Complexo da Penha retiraram cerca de 50 corpos de uma mata, que, segundo denúncias, não constavam no balanço oficial. Alguns cálculos apontam para mais de 100 mortos ̶ talvez 120, talvez 130 ̶ no que já se configura como a operação mais letal da história da cidade.

O que vi

Vi ̶ pela tela do celular, pela transmissão ao vivo ̶ mães que mal podiam acreditar, ajoelhadas ao lado de corpos cobertos por lençois brancos, na Praça São Lucas. Nos rostos, a dor cravada; nos olhos, o vazio da espera. Vi ̶ como se fosse um pesadelo sem fim ̶ barricadas de ônibus queimados, drones que lançavam explosivos, fuzis nos becos, e o som de vidas que se esvaíam entre o barulho dos blindados e a sirene das ambulâncias. Vi silêncio. Um silêncio profundo pós-tiroteio, um ar pesado de incredulidade, uma cidade que paralisa. Escolas fechadas, eventos culturais cancelados, o samba que ficou mudo naquela noite.

A dor das comunidades

Para quem vive em comunidade, o medo já existe há muito tempo: às vezes sussurrado, às vezes gritante. Mas naquele dia ele se tornou concreto ̶ mais do que nunca. O ativista Raull Santiago, morador do Alemão, disse: “Essa é a face da cidade maravilhosa… mas há esses momentos em que a desigualdade grita, o poder direciona o seu ódio e traz na prática o mais brutal possível o seu recado para quem vive em comunidades como a nossa.” Ele tinha razão. Porque não era apenas uma operação contra o crime ̶ era também um recado, uma demonstração de poder que atravessou as vielas, entrou nas casas, atingiu vidas.


Fátima Lelis – Antropóloga Social, rotariana e acadêmica da Associação Brasileira Rotária de Letras – Seção Paraíba (ABROL-PB). Conselheira do Conselho da Pessoa Idosa de Mamanguape e apresentadora do programa Direto ao Ponto, na Rádio Correio do Vale 94.1 FM.

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