- Publicidade -

Clarice Lispector e o retrato da invisibilidade da mulher

A Hora da Estrela é um convite à reflexão sobre a condição feminina, a migração nordestina e a força literária de Clarice Lispector.
LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

A leitura escolhida como dica, desta vez, foi motivada pelo dia 08 de março. Uma data reservada, de forma muitíssimo especial, para destacar as mulheres com toda sua história de dores, de lutas e de vitórias. Lembrando que muito há ainda o que ser combatido e conquistado por todos, não apenas por elas.

Para tanto, começo por falar sobre a autora, uma das maiores representantes da nossa Literatura Brasileira. Clarice Lispector destacou-se na segunda fase do nosso Modernismo. Ela nos presenteia com um estilo que vem na contramão das escritas tradicionais, produzindo obras cujas histórias predominavam nas ocorrências externas, no mundo visível. Mesmo havendo espaço para o que se pode chamar de preocupação social e, consequentemente, a denúncia. Um papel que, aos poucos, foi assumido pela literatura. E esta obra é uma excelente dica para quem deseja começar a conhecer as obras vanguardistas e, em especial, desta autora.

“Pois que a vida é assim: aperta-se o botão e a vida acende. Só que ela não sabia qual era o botão de acender.” (p. 29)

Os textos da Clarice destacam-se por terem um direcionamento narrativo, onde predomina o universo interior, reflexivo, intimista, psicológico do narrador, dos personagens… Apesar de ter cenários conhecidos, a exemplo da zona sul do Rio de Janeiro (Copacabana, Jardim Botânico), ambientes familiares (sala, cozinha). A casa é um elemento de destaque nas narrativas da Clarice, por se tratar de um cenário revelador da mulher, onde as tensões do ambiente familiar acontecem e nele podemos verificar o papel da mulher na sociedade.

“…limito-me a contar as fracas aventuras de uma moça numa cidade toda feita contra ela.” (p. 15)

Um outro ponto de destaque nos textos de Clarice é a forma inesperada em que ocorre a “epifania”. Em algum momento, algo acontecerá com o/a personagem, de forma que, em seu momento de revelação, haverá uma tomada de consciência. E aí, a narrativa passa a tomar outro rumo, pois houve um despertar, uma transcendência. Mais uma vez, temos um narrador, cujo universo mais explorado na história é o interior dos/as personagens.

“Eu sou sozinha no mundo e não acredito em ninguém. Todos mentem, às vezes até na hora do amor, eu não acho que um ser fale com o outro. A verdade só me vem quando estou sozinha. (p. 69)

Esta obra (para uns, romance; para outros, novela) é uma narração que possui uma organização mais linear, tendo em vista que se desenrola dentro de uma estrutura com começo, meio e fim. Macabéa é a protagonista que vive uma típica mulher nordestina, que vai procurar a sorte na cidade grande. Temos aqui mais um traço nacionalista da Literatura Brasileira, à época de sua produção, tendo como tema a migração nordestina para o Rio de Janeiro. Nela, podemos ver a personificação da invisibilidade social. Ela é infeliz, falta-lhe beleza, não tem consciência de si. Dividirá sua vida e a narração com Olímpio de Jesus, um operário da metalúrgica, que almeja tornar-se deputado no Estado da Paraíba.

“Apesar de tudo, ela pertencia a uma resistente raça anã teimosa que um dia vai talvez reivindicar o direito ao grito.” (p. 80)

Vale destacar também Rodrigo S. M. (o narrador) pelo seguinte aspecto: logo no início da narração, há considerações filosóficas: “Quem vive sabe, mesmo sem saber que sabe”; considerações ao falar das nordestinas, como por exemplo o ”sentimento de perdição” no rosto de Macabéa e ainda considerações sobre a própria construção do texto, o que conhecemos como “metalinguagem” (o código esclarecendo o próprio código). Em diversos pontos Rodrigo fala sobre a construção de sua história, levando em consideração elementos de uma narração.

É importante destacar que não se trata de uma obra que deixe o/a leitor(a) maravilhados(as) com o “gran finale”, que seria a solução de um conflito de maneira encantadora. Esta é uma excelente oportunidade para conhecer (ou nos aproximar) de uma escritora e seu modo extraordinário de falar sobre a mulher, sobre o Brasil, sobre a vida e tudo que esta vida nos oferece, nos rouba ou nos nega. Mas sem nos incentivar ao comodismo. Muito pelo contrário. Se bebermos cada instante de sua obra e degustarmos de cada gesto narrativo, olharemos de forma diferente para a vida, para que esta vida não seja apenas “um soco no estômago”, como nos diz o narrador.

“… eu não tenho piedade do meu personagem principal, a nordestina: é um relato que desejo frio.” (p. 13)


Marcos Tomé – Graduado em Letras pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), especialista e mestre em Língua Portuguesa pela mesma instituição. Atua como professor de Língua Inglesa e é apaixonado pela Literatura, área que inspira sua trajetória acadêmica e profissional.

Relacionadas

ELEIÇÕES 2026
A nova adesão reforça a presença política de Eduardo Brito na região de Sapé. — Foto: Divulgação

Eduardo Brito recebe apoio de Juscelino e Terezinha do Peixe em Sapé

Prefeito Batista Torres participa da 1ª Corrida de São João Batista e comemora sucesso do evento em Itapororoca. — Foto: Reprodução

Prefeito comemora sucesso da 1ª Corrida de São João Batista de Itapororoca

PÓS SÃO JOÃO
Carteira de trabalho - Imagem ilustrada/Internet

Sine-PB oferece 690 vagas de emprego em 12 municípios paraibanos